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UFV chega à África

4 de janeiro de 2011

A África remete a uma terra distante, do outro lado do oceano, dona de belezas naturais exóticas, mas castigada pela fome e pelas guerras. A miséria humana é escancarada em olhares desolados, ao mesmo tempo em que a esperança se apresenta em sorrisos sinceros.

Enquanto isso, do lado de cá do Atlântico, no interior de Minas Gerais, onde essa realidade parece tão longe, as distâncias se tornam cada vez mais estreitas, por meio de trabalho feito pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), na Zona da Mata. A instituição ampliou o acordo de cooperação com países africanos e vai atuar, a partir de 2011, em Moçambique, na criação de cursos de graduação e de mestrado na área de agronomia. A base é a agricultura tropical, desenvolvida pela UFV na década de 1970. Agora, tem a missão de contribuir para a erradicação da fome e o desenvolvimento local e mostrar que a solidariedade também pode ser associada à transferência de conhecimento e à tecnologia. Os primeiros passos foram dados na semana passada, na capital Maputo, como fechamento de parcerias com a Universidade Eduardo Mondlane e os ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia moçambicanos.

A UFV terá papel decisivo em quatro áreas. A primeira delas, a graduação em ciências agrárias, será implantada pela UFV dentro do Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB), na modalidade ensino a distância. A UAB é um programa do Ministério da Educação (MEC) integrado por universidades públicas e oferece cursos de nível superior a camadas da população com dificuldade de acesso à formação universitária, por meio da educação a distância. O trabalho será feito em parceria com a Eduardo Mondlane (UEM).

O reitor Luiz Cláudio Costa e professores da UFV visitam laboratório do Instituto de Investigação Agrária de Moçambique

O segundo ponto é o mestrado, definido pelo Ministério da Ciência e Tecnologia do país africano, cujo interesse é formar e treinar pessoal para trabalhar nos laboratórios do centro de biotecnologia, em construção. No fim de fevereiro, sete jovens, funcionários da pasta, chegam a Viçosa para um estágio de seis meses na universidade, onde há 20 laboratórios bem estruturados no Instituto de Biotecnologia Aplicada à Agropecuária (Bioagro). Eles têm ainda a missão de, no fim desse período, quando voltam ao país de origem para as aulas, montar um projeto para a criação dos laboratórios do centro de tecnologia de Moçambique.

Em paralelo, também haverá parceria coma UEM, que está desenvolvendo estudos em biotecnologia. A cooperação vai incluir um intercâmbio de estudantes e professores entre as duas universidades. As teses serão desenvolvidas em Moçambique, tendo em vista as necessidades de desenvolvimento do país, com um orientador e um supervisor brasileiro e moçambicano. O programa pedagógico está sendo definido por pesquisadores das duas instituições. A terceira decisão diz respeito a um seminário de iniciação científica a ser promovido em Maputo por professores da UFV para a implantação do programa, que vai permitir a interação de estudantes da graduação e da pós.

Maquete do Centro de Biotecnologia de Moçambique em Construção

A última missão da universidade mineira é levar toda a experiência acumulada para a montagem de incubadoras de empresas. O reitor da UFV, Luiz Cláudio Costa, explica que há muitas semelhanças entre o Brasil e a África na questão do clima e do solo. “Quando desenvolvemos a agricultura tropical anos atrás, precisamos buscar treinamento no exterior e levávamos 20 anos para adaptar o aprendizado às nossas condições. Com a África, esse tempo praticamente não existe. Por isso, a parceria com o Brasil, o 13º produtor de conhecimento de ciências novas no mundo, é estratégica e muito importante. É uma cooperação por meio da qual temos muito a aprender com eles”, afirma.

Para o reitor, o Brasil e a África terão, em breve, papel fundamental no aumento de produtividade, observando as questões ambientais e alimentares, diante da crise de alimentos no mundo. Além dos benefícios aos países africanos, ele destaca a importância da parceria para os estudantes de Minas: “Não formamos só profissionais, mas também cidadãos, e quem sair de Viçosa conhecendo a realidade africana será muito mais motivado à aplicação de sua excelência acadêmica associada à justiça social. Temos que reequilibrar os laços da universidade, sem preconceito com as grandes empresas, mas é preciso dialogar com o social e ter responsabilidade com o modelo civilizatório, que, atualmente, só globaliza nosso padrão de consumo”.

O ministro da Ciência e Tecnologia de Moçambique, Venâncio Simão Massingue, diz que a meta é formar 6,5 mil mestres e doutores até 2025. Atualmente, esse número está abaixo de1 mil. “É fundamental aprimorar as boas relações com o Brasil, por meio da transferência de conhecimento. Formar essa mão de obra alavanca o nível de um país”, ressalta.

Ministro da Ciência e Tecnologia de Moçambique, Venâncio Massingue

A biotecnologia é uma área que começou a ser pesquisada recentemente e pode ser usada em vários setores. Em Viçosa, o destaque é na agropecuária e envolve pesquisas como sequenciamento de DNA e identificação de genes. No Instituto Bioagro, entre os programas de destaque estão os estudos relacionados à soja, cana-de-açúcar, feijão, suínos e aves. Segundo o pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação, Cosme Damião Cruz, a biotecnologia pode ser usada ainda nas investigações sobre o biodiesel, o aumento da quantidade de alimentos e da água. “O objetivo é oferecer melhor qualidade aos produtos e otimizar recursos, mas, mais que usar isso, é necessário formar pessoas e difundir o conhecimento”, ressalta.

Fonte: Adaptação Jornal Estado de Minas