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A África é um dos continentes mais abertos a negócios de brasileiros

1 de fevereiro de 2012

Marta Vieira - Estado de Minas

Publicação: 30/01/2012

De Ipatinga, no Vale do Aço mineiro, para Moçambique, na costa leste da África, as exportações de uniformes profissionais da Provest Uniformes poderiam ter dado um passo maior do que as pernas da fábrica erguida no começo dos anos 1980, não fosse o aporte de mais de R$ 7 milhões na ampliação da produção e modernização de equipamentos nos últimos três anos.

No mesmo rastro, a Geosol, especializada em serviços de sondagem de minerais, abriu uma subsidiária na Guiné, costa oeste africana, e planeja oferecer seus serviços na Namíbia, Zâmbia e Senegal, se aproveitando do crescente número de consultas da indústria mineral. Em comum, as duas empresas trilham o caminho de fornecedores mineiros de grandes mineradoras e construtoras que redescobrem antigas colônias portuguesas na África ávidas por investimentos dos brasileiros.

Com o fim da guerra civil em 1992, Moçambique surge como promessa para empresas brasileiras e, particularmente, as de Minas, que se tornou sede da Câmara de Comércio, Indústria e Agropecuária Brasil/Moçambique. Em busca da reconstrução, o país tem aplicado recursos em infraestrutura de rodovias e pontes, telecomunicações, energia e habitação, observa o diretor-executivo da câmara, Rodrigo Oliveira. “Não prospectamos mais empresas interessadas em investir no país. Elas é que vêm à câmara em busca de informações e apoio para fazer negócios em Moçambique”, afirma o executivo.

O país de 20,3 milhões de habitantes cresceu 8,3% em 2010, oitava maior taxa no mundo, com um Produto Interno Bruto (o PIB é o conjunto da produção de bens e serviços) de US$ 9,9 bilhões. As exportações brasileiras para Moçambique somaram US$ 40,3 milhões naquele ano, de acordo com os últimos dados disponíveis. Já atuam na nação africana grupos como a Vale e as construtoras Carmargo Corrêa e Odebrecht. A mineradora orçou recursos de US$ 1,658 bilhão, dos quais US$ 422 milhões aplicados em 2011, para bancar o projeto Moatize, reserva com capacidade de produzir 11 milhões de toneladas de carvão metalúrgico e térmico po ano. A etapa seguinte terá nova mina destinada a dobrar a produção.

Para viabilizar a infraestrutura de Moatize, a Vale adquiriu o controle da Sociedade de Desenvolvimento do Corredor do Norte, responsável pela concessão do porto de Nacala e de uma ferrovia de 872 quilômetros. Na Guiné, a companhia pretende desembolsar US$ 1,134 bilhão no projeto Simandou, com capacidade para produzir 50 milhões de toneladas de minério de ferro por ano. A experiência adquirida pela Geosol, sediada em Belo Horizonte, na sondagem mineral em áreas remotas, como a floresta amazônica, foi como um passaporte para atender grandes minerações na África, como as áreas da Vale.

A Geosol Guiné foi constituída em 2008 e o país já se transformou no segundo mercado da empresa no exterior, informa o diretor administrativo, de suprimentos e comercial, Dalmo Pereira. “Sempre chegamos na frente de todo mundo, como uma espécie de desbravadores, para viabilizar ou não uma reserva mineral”, conta. A primeira incursão da Geosol no continente foi 20 anos atrás, no antigo Zaire, atendendo grandes companhias. A unidade guineense não só ganhou prioridade em negócios como também uma fatia de investimentos equivalente a cerca de 30% das aplicações no Brasil. Diante das frequentes consultas de mineradoras com interesse na África, a Geosol estuda a possibilidade de atuar em outras nações do continente, entre elas a Libéria, Zâmbia, Namíbia e Senegal.

Depois de se transformar num dos maiores fornecedores de uniformes profissionais do Brasil, a Provest Uniformes, de Ipatinga, seguiu a Vale até Moçambique e se animou a buscar novas oportunidades a partir de Maputo, a capital, revela o proprietário da empresa mineira, Luciano Araújo. “É um mercado interessante, mas não podemos desprezar a questão cambial (a valorização do real frente ao dólar), que encarece os nossos produtos lá fora. O ideal é atuar em parceria com multinacionais brasileiras”, afirma o industrial. Em apenas um ano de fornecimento de uniformes aos empregados da Vale em Moçambique, o país passou a representar 2,2% do faturamento da Provest, que foi de R$ 31,5 milhões em 2010. A expectativa de Araújo é ampliar essa fatia para 5%, atendendo mais clientes. A produção total em Ipatinga saiu de 400 mil peças anuais em 2007 para 1,100 milhão por ano.

Maioria de Minas nas missões

Empresas mineiras ou com sede em Minas têm sido as mais assíduas nas missões para discussão de negócios em Moçambique e lideram a procura de informações sobre como investir no país, de acordo com Rodrigo Oliveira, diretor-executivo da Câmara de Comércio, Indústria e Agropecuária Brasil/Moçambique. “Nossa primeira missão desembarcou no país em 2008. Fazemos cerca de 10 viagens por ano ao país”, afirma. No circuito mais recente, realizado em novembro, a instituição levou 100 empresários, dos quais um quarto de mineiros.

Está prevista mais uma missão integrada por 30 empresas para meados de abril, com enfoque em investimentos na agropecuária. “Há possibilidades de negócio em praticamente todas as áreas, com o crescimento de Moçambique”, diz o diretor da câmara de comércio e indústria. As afinidades decorrentes da língua portuguesa, idioma falado no país, aproximaram a consultoria mineira de gestão empresarial Verde Ghaia do mercado de Moçambique. “Temos um produto que monitora as legislações aplicáveis aos empreendimentos industriais, com atenção especial a critérios como meio ambiente, saúde e segurança do trabalho”, explica Taís Ude de Souza, gerente de Relações Internacionais da empresa que presta o serviço para a unidade da Vale instalada no país africano.

Outra marca de Minas que decidiu apostar na reconstrução de Moçambique é a Itatiaia Móveis, criada há 47 anos em Ubá, na Zona da Mata. A fábrica, que tem capacidade de produzir 14 mil armários de aço por dia, em média, exporta seis contêineres por ano à nação africana, volume ainda pequeno para suas pretensões. “Trabalhamos com um cliente importante que nos auxilia na distribuição dos móveis”, diz a gerente de exportação da empresa, Jussara Civardi.

Há mais um indicador das necessidades impostas pelo crescimento de Moçambique está na contratação do trabalho de treinamento de mão de obra para a indústria. Toda a qualificação dos empregados da Vale foi encomendada à unidade mineira do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai-MG). Foram treinados 780 trabalhadores numa escola montada em parceria com a Vale na localidade de Tete, distante 1,5 mil quilômetros da capital Maputo, informa Edmar Alcântara, gerente de educação profissional do Senai-MG. (Colaborou Frederico Bottrel)