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1O fatos sobre o Acesso ao Financiamento pelas Mulheres em Moçambique

25 de abril de 2016

No dia 7 de Abril, celebramos o Dia da Mulher Moçambicana. O FSDMoç aproveita esta oportunidade para realçar a importância do acesso ao financiamento pelas das mulheres. Estudos indicam que quando a mulher controla as finanças, as despesas focam mais nas necessidades do agregado familiar, nomeadamente compras de comida, água, educação e saúde das crianças. Em reconhecimento a todas mulheres Moçambicanas, o FSDMoç através deste “blogue” partilha alguns resultados sobre inclusão financeira da mulher, usando os dados do Inquérito ao Consumo do Finscope 2009 e 2014, e, das Micro Pequenas e Médias Empresas (MPMEs) 2012.

Os resultados do Inquérito ao Consumo do Finscope 2014 são um apelo para intervenções que proporcionem à paridade de género na inclusão financeira. A inclusão financeira é vista como catalisador chave do desenvolvimento económico em África. Contudo, o acesso aos serviços financeiros por parte de indivíduos e empresas ainda é limitado no continente. As mulheres desempenham um papel particularmente importante na sociedade em que elas estão inseridas, mas são geralmente menos abrangidas pelos serviços financeiros do que os homens. O FSDMoç na sua agenda para melhorar o acesso ao financiamento para as mulheres, realça 10 factos a saber sobre o acesso ao financiamento por parte das mulheres Moçambicanas em particular:

  1. Comparando os dados de 2009 e 2014, a inclusão financeira da mulher está a aumentar, mas, a uma taxa inferior à do homem.

O inquérito FinScope segmenta a inclusão financeira em três categorias: (1) inclusão bancária, (2) inclusão formal não bancária [instituições de microfinanças (IMFs), seguradoras, provedores de serviços dinheiro móvel e provedores de serviços de transferência de dinheiro (Western Union, MoneyGram, etc.)] e (3) inclusão informal (grupos de poupança ou família e amigos). A Inclusão formal nas zonas urbanas, aumentou em 55% para mulheres, comparado com 74% para homens. Por outro lado, o acesso das mulheres ao financiamento através de provedores não bancários aumentou em 200% comparado com 108% para homens. No entanto, a inclusão informal também nas zonas urbanas, aumentou por 33% para as mulheres e 9.5% para os homens; enfatizando que o acesso aos bancos é mais predominante para homens comparativamente às mulheres, e que elas tenham provavelmente mais afinidade aos serviços financeiros informais. Este facto, remete-nos a pensar sobre a melhor estratégia a ser usada quando se pretende levar mais serviços financeiros para as mulheres.

  1. As mulheres usam mais poupanças informais (grupos de poupança e xitique) e remessas (envio de dinheiro para família e amigos).

De todos serviços financeiros, a inclusão informal é predominante para os produtos de poupanças e remessas para as mulheres. O cenário é diferente para outros serviços; o uso do crédito formal, principalmente pelas mulheres assalariadas está a aumentar a uma taxa inferior em relação a dos homens. É pouco provável que as mulheres adiram à produtos como seguros ou serviços de dinheiro móvel. Este facto, pode estar associado a outros fatores sociais que influenciam na aderência de certos produtos, neste caso, podemos apontar a oportunidade de socializar e de pertencer a um grupo de mulheres dentro e fora da comunidade, além de poder poupar e emprestar dinheiro em caso de necessidade.

  1. Os níveis de literacia financeira das mulheres são baixos (30%), estando elas menos capacitadas para compreender algumas questões sobre produtos e serviços financeiros;

Os níveis de instrução e de conhecimento sobre produtos financeiros tais como (microcrédito, dinheiro móvel/electrónico, mkesh, mpesa, etc.) são inferiores aos dos homens (33%) e as mulheres recorrem menos aos bancos para obter aconselhamento sobre questões financeiras do que os homens. Além disso, estão menos conscientes sobre os benefícios de ter uma conta bancária, menos susceptíveis de conhecer ou de visitar pontos de acesso a serviços financeiros. Normalmente, as mulheres pouco participam nas decisões financeiras, excepto para os gastos da casa, a menos que sejam financeiramente independentes.

  1. A atitude das mulheres perante aos bancos – maior procura por produtos de poupança (ex.: conta-a-prazo) e menos produtos de crédito ou contas correntes.

Como mostram os dados do ponto 3, as mulheres detém menos conhecimento sobre serviços financeiros, mas quando engajam com os bancos, procuram mais contas poupança de forma a aumentar o rendimento do seu dinheiro no banco, enquanto a maioria dos homens abrem contas como resultado dos requisitos do seu empregador. Porém, um facto curioso, é que quando as mulheres são questionadas sobre a razão para não abrir uma conta bancária corrente, a maioria das mulheres respondeu que não tinha dinheiro suficiente para o fazer.

  1. De certa forma, os obstáculos para aumentar o acesso ao financiamento pelas mulheres estão relacionados à questões culturais, autonomia financeira e igualdade de género.

Uma análise do FinScope MPMEs 2012, expõe que a maioria dos proprietários de micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) são do sexo masculino, principalmente empresários em nome individual. Tendo em conta os tradicionais papéis de género no agregado familiar (sendo que as mulheres normalmente estão engajadas nas actividades da casa e tomam conta das crianças, como também dão conta das suas responsabilidades no local de trabalho), as mulheres beneficiam menos dos produtos financeiros e os canais de distribuição tradicionais porque não são personalizados de forma a servir as suas necessidades. Diante desses preconceitos culturais, há uma grande necessidade de apoiar o desenvolvimento de produtos adequados para mulheres enquanto indivíduos e como mulheres de negócio.

  1. A capacidade da mulher em gerar rendimento está associada a sua participação no processo de tomada de decisão a nível do agregado familiar;

Existe um padrão na capacidade das mulheres para tomar decisões sobre o uso de recursos financeiros. Por exemplo, as mulheres que trabalham no sector agrícola e que dependem mais da ajuda de terceiros em termos de recursos financeiros, tem pouca autonomia para gerar e tomar decisões sobre a alocação dos recursos, mas, representam a maioria envolvida nos sectores agrícola e de pecuária. Em termos de tomada de decisões, 44% de mulheres que recebem pensões do governo tomam decisões sozinhas, sendo o mesmo para mulheres e assalariadas e aquelas que têm o seu próprio negócio.

  1. As mulheres são mais “atractivas” como clientes, porque investem mais em activos que concorrem para o benefício da família (emergências, construção de casas e na educação);

Alguns estudos[1] revelam que as mulheres preocupam-se mais, de forma intuitiva, com o bem-estar da família (em comparação aos homens) e gastam mais em emergências médicas, construção de casas e na educação, realçando o seu sentido de responsabilidade para com a utilização dos recursos e o seu compromisso como um cliente. Um estudo da IFC (Organização Financeira Internacional), “A Research Report on Opportunities, Challenges, and the Way Forward”, baseado em análises feitas na Índia em 2014, realça que as mulheres mutuárias têm registos de reembolso mais acentuados e os dados desagregados por género dos bancos indicam que os empréstimos improdutivos são de 30 a 50 por cento menores em empresas/negócios comandados por mulheres.

  1. As mulheres estão menos envolvidas com os Serviços Financeiros Móveis, “dinheiro móvel”;

A adopção aos serviços financeiros móveis é baixa tanto para homens como mulheres, mas as mulheres estão servidas com apenas 2,7% contra 4,2% para os homens. Este facto pode estar ligado ao nível de afinidade e utilização da tecnologia, como telemóveis, pelas mulheres, uma vez que o dinheiro móvel é “entregue” através deste. Curiosamente, seria um canal de entrega de serviços financeiros ideal para as mulheres considerando os constrangimentos que esta tem para se deslocar a um balcão ou uma ATM, poderá faze-lo a partir de um telemóvel, em casa, enquanto cuida da família.

  1. As mulheres têm mais dificuldades em satisfazer os requisitos do regulamento contra a lavagem de dinheiro “Know your customer (KYC) ” ou “Conheça Seu Cliente, principalmente nas zonas rurais;

Os provedores de serviços financeiros aceitam como documento de identificação para abertura de uma conta bancaria ou outros serviços, o BI, passaporte ou uma factura de água ou de electricidade. O FinScope 2014 revelou que poucas mulheres têm a capacidade de obter e apresentar estes documentos para abrir contas bancárias e ter acesso a serviços relacionados. Por exemplo, 53,4% dos homens têm BI, contra 48,6% de mulheres. A factura de electricidade apresenta uma lacuna muito maior, com 7,4% dos homens na posse duma contra 2,9% de mulheres. Em relação a garantias bancárias (colateral para empréstimo), os números revelam cerca de 3,9% para os homens e 1,7% para as mulheres.

  1. O conhecimento sobre onde se dirigir quando precisam de serviços financeiros é baixo para as mulheres;

A maioria das mulheres A consciência relativa aos serviços financeiros é muito baixa entre as mulheres não sabe onde obter financiamento e outras facilidades. A percentagem de mulheres que não sabe da existência e nunca se deslocou para uma agência ou ATM é significativa, sobretudo nas áreas rurais, ou seja, 53% não sabe da existência ou da localização de bancos, 58% para as ATMs e 56,4 % para outras instituições financeiras.

Apesar de a inclusão financeira estar a aumentar, muitos Moçambicanos continuam sem acesso a serviços financeiros. Há uma necessidade de apoiar o desenvolvimento de negócios e contribuir para a resiliência dos mais desfavorecidos face aos riscos relacionados emergências e as disposições para gerir a irregularidade da geração de rendimento do pequeno produtor agrícola nas zonas rurais.

Fonte: USAID